Convite aceito

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Das muitas coisas boas que a literatura tem me proporcionado, receber convites para participar de seminários, palestras, oficinas, grupos de leituras é uma delas. A literatura, ao menos para mim, nunca foi sobre citar os nomes dos livros, sobre quem leu mais, ou mesmo sobre postar foto numa cafeteria com o livro do lado. 

Livros/Literatura para uns pode até ser “modinha”, status ou acessório de lux, como é o caso da influenciadora Rafa Kalimann, que comprou cerca de R$ 10 mil em livros para decorar sua casa, especificamente a cozinha e uma biblioteca.

Literatura tem a ver com a disseminação de ideias, sobre partilhas de narrativas (ficcionais ou não), sobre criação e fortalecimento de vínculos. Por isso, esse poder de humanização que dela exala. Antonio Cândido estava coberto de razão quando afirmou que a literatura é um direito humano que amplia nosso senso ético, crítico e estético. Sem falar que literatura e amizade andam de “Mãos Dadas” para lembrar o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. 

Dessas amizades nascem os convites. Dina Melo chamou-me para coordenar, junto com ela, um Grupo de Estudos sobre Gênero. Eu, que já tenho 1001 atividades literárias, ensaiei um não, e disse um sim. 

Depois da escrita do projeto da criação do Grupo e da curadoria dos livros (Dina), eu revisei, fiz alguns ajustes no texto e cadastrei na Pró-reitoria de Extensão da Universidade Federal do Cariri (Proex/UFCA). Preparei todo o processo de divulgação e esperei que tivéssemos alguns poucos (pouquíssimos) interessados (as).  Vivemos em tempos de excesso de atividades e desequilíbrio entre vida pessoal e vida social. Não é que se inscreveram cinquenta pessoas!

Um misto de felicidade-preocupação se apoderou de mim. Eram cinquenta inscrições, vinte e cinco vagas (cadeiras), já que o Grupo aconteceria (acontece de março-dezembro) no Refúgio Café Bar. Mas se “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, tudo dá certo quando se tratam de dois convites nobres: o da Dina para dialogar sobre Gênero e o da escritora Chimamanda Adichie para que Sejamos todos feministas, obra publicada em 2014,mas  apresentada pela primeira vez como palestra TEDx em dezembro de 2012.

A autora que já havia proferido outra conferência no TEDx no ano de 2009 chamada “O perigo de uma história só”, transformada em livro com o nome O perigo de uma história única (2019), inicia sua segunda palestra-livro falando como os “estereótipos limitam e formatam nosso pensamento, especialmente quando se trata de África”. Chimamanda, as crenças limitantes, infelizmente, ultrapassam os limites do continente africano. 

Mesmo sabendo que a palavra “feminista”, como a própria ideia de feminismo é limitada por estereótipos, a autora resolveu abordar essa questão porque a toca profundamente, mesmo não sendo um assunto “muito popular”. Confesso que ainda fico estarrecida quando uma mulher se põe contra o feminismo – luta por direitos iguais entre homens e mulheres. 

Feminismo(s) é um dialogo necessário para combater o sexismo, o patriarcalismo  e as múltiplas violências em uma sociedade onde as mulheres sentem medo de serem violentadas (82%) até mesmo no mundo digital (TV Brasil, 2026). Isso sem contar com a jornada dupla de trabalho gerando estresse e adoecimento físico e mental. E, na prática, mulheres podem ganhar até 30% menos que homens desempenhando as mesmas funções.

Chimamanda parte de fatos pessoais – conversa acalorada com o amigo Okolomo que a chamou de “feminista” com significado de “terrorista”; lançamento da obra Hibisco Roxo (2003) em que narra múltiplas violências, e um jornalista, “um homem bem-intencionado”, a aconselhou não se intitular de feminista; docente universitária lhe explicou que o feminismo não fazia parte da cultura africana; amiga  lhe disse que ser feminista significava odiar os homens; no primário, a professora afirmou que o aluno que tirasse a maior nota da prova seria o monitor da sala. Chimamanda tirou a nota maior e o escolhido foi um menino (a segunda nota mais alta). A professora não estava preparada – a sociedade contemporânea tampouco – para que uma menina quisesse ser monitora – ou que tirasse a nota mais alta de toda a sala, ou que quisesse jogar futebol, ou que desejasse ser caminhoneira, ou que almejasse pilotar um avião e por aí vai. A lista é longa! “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos”.

Numa parte do livro (seria capaz de destacar todas), Chimamanda diz que as pessoas perguntam a ela “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você (ela) não acredita nos direitos humanos ou algo parecido?” Ao que ela responde:

“Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é o ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino” (Sejamos todos feministas, 2012).

Enquanto alguns se importam com o uso de terminologias – “feminismo”, “feminista” – as mulheres continuam sendo Cidadãs de segunda classe (1974), para lembrar uma outra nigeriana, Buchi Emechet.

“Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal”. Sejamos todos feministas é um convite para que repitamos que homens e mulheres têm direitos iguais. Sejamos todos feministas é um convite para que vejamos homens e mulheres com direitos iguais.  Mais do que repetir e ver, é um convite para dialogar e construir uma sociedade forjada na igualdade, na equidade e na justiça social. 

Sobre a autora:

Screenshot_20240316-094225.png Convite aceito

*Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler (nordestinadosaler.com.br)